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INDICADORES: AS FERRAMENTAS DA MENTIRA CORPORATIVA

6 de jun. de 2016
6 min de leitura

Atualizado: 23 de mai. de 2020


Artigo da Semana | SY Consultoria e Treinamento

Há quem diga que para gerenciar as ações resultantes de um planejamento estratégico basta fazer uma relação de indicadores baseados no método matemático denominado “regra de três”. Por mais que esta afirmativa pareça não alcançar a dimensão do tema “indicadores”, aqueles que afirmam isto não estão errados. Afinal, para que servem os indicadores se não para extrairmos deles a verdade que quisermos?

É claro que a convicção apresentada acima, não passa de substantivo retórico, depreciativo da compreensão limitada daqueles que acreditam que indicadores são “domáveis” apenas pelo conhecimento (básico) da matemática. Por essência, o estrategista deve compreender não somente o trato ferramental da matemática como serva dos indicadores, mas da lógica e da correta leitura da realidade. Sim, a prática de cálculo está intrinsicamente ligada à leitura da realidade, logo, se a gênese do indicador parte de uma leitura enviesada, este não poderá descrever os acontecimentos presentes, tampouco predizer, com mínima margem de confiança, o futuro.

Assim, a concepção de um indicador surge muito antes de se pensar em números, surge da capacidade de abstração dos aspectos subjetivos da realidade observada (sensível), através da dialética como instrumento de destruição do mundo ilusório das sombras. Platão, em sua conhecida “alegoria da caverna” já expunha este preceito. É certo, porém, que o aprofundamento nesta linha de raciocínio nos levaria a uma nova abordagem que extrapolaria o objetivo intencionado neste artigo. Ficaremos, portanto com a leitura simplória de que os indicadores são “servos fervorosos” da descrição da realidade observada e tendem a evidenciar de maneira sistêmica o estado da(s) coisa(s) sob análise.

Assim, um estrategista que se apoie num indicador de liquidez corrente sem, no entanto, verificar qual o nível de concentração da sua carteira de clientes, bem como o nível de sua inadimplência, terá toda sua estrutura falida ao mínimo decréscimo de sua liquidez, pois além de não observar estes fatores críticos (concentração de carteira e inadimplência), não atentou para o nível ótimo de liquidez frente ao seu modelo de negócio, ainda que haja consenso na análise deste indicador que afirme ser “bom” uma resultante maior que 1, o quantum além do “1” não pode ser definido sem que se identifiquem especificidades do negócio, como o vetor de “exposição ao risco” em atividades que demandem esta análise, a exemplo fundos de investimento, a saber.

Um exemplo prático e recente do quantum necessário acima de 1 é o da Eletrobrás que ao ter seus American Depositary Receipt (ADRs¹) passa a sofrer forte pressão sobre sua liquidez corrente uma vez que o prejuízo à imagem da empresa prejudica também sua capacidade de financiamento. Como origem do problema, tem-se a negativa da consultoria KPMG em assinar o balanço da empresa por conta da impossibilidade de se calcular os eventuais prejuízos decorrentes das denúncias no âmbito da força tarefa “Lava Jato” sobre uma de suas subsidiárias, a Eletronuclear que opera as usinas Angra I, Angra II e está em fase de execução das obras da Usina Nuclear Angra III. Dada obrigatoriedade de ter seu balanço avaliado por uma auditoria independente, e da KPMG ser obrigada a seguir as regras da SEC, nos Estados Unidos e, portanto, não assinar um balanço aparentemente ineficaz na identificação de prejuízos advindos de atividades de corrupção na empresa, esta subsidiária contamina toda a operação de financiamento da empresa e o percentual de concentração desta fonte de financiamento reduz na mesma proporção o índice liquidez corrente da Eletrobrás.

Neste caso, ao considerar a exposição da empresa à fonte de financiamento externo e não-operacional, deve-se dizer que um índice de 1,1 é suficiente para garantir sua capacidade real de adimplemento de curto prazo? Faz-se relevante separar, ainda que apenas operacionalmente e a título de compliance, as informações e análises financeiras das subsidiárias a fim de agir profilaticamente em casos de contaminação, seja por endividamento, descasamento de contas ou mesmo por fatos relevantes?

Deve ficar claro, que não se pretende subdimensionar a complexidade inerente a uma empresa do porte da Eletrobrás, mas cabe o exemplo apenas como proposta pedagógica do exercício de abstração subjetiva da realidade para a compreensão verdadeira da intencionalidade dos indicadores estratégicos.

Não obstante à pretenciosa e anterior análise, outro exemplo prático é o da crise financeira internacional de 2008, considerada, nas palavras do Diretor de Fiscalização do Banco Central, Anthero Meirelles, no ano de 2014, “a maior dos últimos 85 anos”, que deu origem ao conjunto de propostas de emendas ao Basiléia II, conhecido posteriormente como Basiléia III, emitido pelo Comitê de Basiléia entre os anos de 2009 e 2010.

Os documentos que compõem o Basiléia III, se preocupam em maior extensão, com os riscos das operações advindas das “inovações” financeiras desde o Basiléia II, em 2004. As ditas “inovações” identificadas pelo comitê dizem respeito à criação de instrumentos fora de balanço, facilidades de liquidez e aos derivativos de crédito (retroalimentando sem lastro, a liquidez facilitada). De acordo com o comitê essas atividades criaram exposições nos modelos de negócio, através, principalmente de fatores de risco de difícil identificação, mensuração, administração, mitigação e controle. Senão vejamos, os Derivativos, grandes vilões da crise de 2008, passam a ser vistos com maior atenção no Basiléia III, uma vez que a ressecuritização é, na prática a emissão de títulos lastreados por outros títulos, ou seja, papel segurado por papel, sem garantia (em tese) de lastro na origem. Neste caso em especifico, o Basiléia III adotou como medida mitigadora a obrigatoriedade de provisão de 20% do capital ressecuritizado, frente aos 7% exigidos para a securitização dos papeis de crédito. Em termos práticos, e a fim de nos manter no foco deste artigo, tem-se que antes da crise de 2008, os papéis de ressecuritização representavam a redução da exposição da carteira ao risco, sem, no entanto, considerar, a origem do lastro que, nesse caso, era o tomador do crédito. Esta ressecuritização, garantia e até alavancava a liquidez corrente sem, sequer permitir a avaliação do lastro, pois a garantia estava na securitização, que também não garantia lastro, já que a origem se encontrava no papel de crédito, que por vezes era cedido sem a devida avaliação de risco do tomador deste mesmo crédito, pelos bancos. Difícil entender? Não se preocupe, você não está sozinho, pois isto não representa a décima parte dos aspectos técnicos dos acordos de Basiléia culminados na sua terceira versão.

Retornando, neste caso em especial, podemos ver claramente, como os indicadores podem nos entregar a realidade que quisermos. Contudo, isto ocorre apenas enquanto a “fogueira da caverna”, do mito platônico, estiver acessa. Pois, ao apagar das chamas a completa escuridão e caos, toma conta de tudo ao redor, evidenciando que as sombras (antes vistas como reflexo da realidade na parede profunda da caverna) nada mais eram do que o prenuncio da escuridão total, levando os seres viventes naquele ambiente, a procurarem a luz da verdade. Contudo, o que ocorre muitas vezes é que estes moradores das trevas, se contentam em apenas reacender a chama da fogueira antes apagada, voltando-se às sombras de sempre, sem, no entanto, se arriscar a ir além para ver a luz majestosa do sol.

Indelével o tom filosófico deste artigo, tem-se que os indicadores podem ser a base de um plano executivo de excelência, promovendo resultados excepcionais. Entretanto, cabe ao estrategista compreender que a hipótese nula de sua formulação estratégica, deve questionar a realidade baseada no comprometimento com resultados sustentáveis e vinculados à busca do continuo equilíbrio, premissas sem as quais, não haverá estabilidade e onde o caos reinará.

Recorrendo ao artigo “Os Heróis Devem Cair” as organizações precisam de indicadores elaborados com inteligência e foco na sustentabilidade corporativa. Qualquer coisa diferente disso é apenas “regra de três” sem qualquer uso praticou ferramenta da mentira corporativa.

Rodrigo Mendes Carpina

Economista

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¹ ADRs são certificados de ações emitidos por bancos, no caso, nos Estados Unidos. Um ADR pode ser patrocinado, que é quando a empresa estrangeira contrata um banco para que este intermedeie a negociação, custódia, divisas e impostos, obrigando a empresa estrangeira a se cadastrar na Securities and Exchange Commission (SEC), equivalente à CVM no Brasil, ou não-patrocinadas, que é quando o banco é quem possui as ações da empresa estrangeira e as emite através dos ADRs, sem que a empresa, emissora original da ação, tenha responsabilidade pelas ações comercializadas pela instituição financeira.

Rodrigo Mendes Carpina. Economista, formado pela Universidade Federal de Rondônia. Especialista em planejamento estratégico e indicadores de gestão para os setores público e privado. Autor do livro "A Estratégia Por Trás Do Balanced Scorecard", publicado pela Editora da Universidade Federal de Rondônia. Idealizador do modelo matemático denominado “Coeficiente de Desigualdade Agregado”, que visa avaliar aspectos relevantes do orçamento estadual, com vistas a ser uma ferramenta de apoio à análise efetuada nos Relatórios Prévios do TCE/RO. Atuou, no ano de 2013, na revisão do Mapa Estratégico do Estado de Rondônia. Já atuou no setor cooperativo de crédito (SICOOB Central Norte) e de educação (Regional Senac/RO) sempre à frente de ações de planejamento e relacionamento com entidades de controle externo e auditoria. Atuou, em 2017, na consultoria que elaborou o Planejamento Estratégico da Secretaria de Finanças do Estado de Rondônia – SEFIN/RO. Atualmente, desenvolve soluções voltadas para o Setor Público com a aplicação de Data Intelligence (Business Intelligence – BI), de modo a correlacionar as ações e medidas estratégicas e apoiar o desdobramento da estratégia aos níveis táticos e operacionais, promovendo a relação de Causa e Efeito previsto no modelo BSC.

 
 
 

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