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O GAROTO LCP E SUA IGNORÂNCIA SOBRE O MUNDO REAL

8 de abr. de 2019
7 min de leitura

Atualizado: 22 de mai. de 2020


ANTES, UM AVISO

Este artigo visa demonstrar, de forma lúdica, por meio de um conto em crônica-ensaio cuja inspiração tem fonte em diversas discussões diárias ocorridas nos mais variados meios em que interajo, com pessoas das mais diferentes vertentes do pensamento e dos mais variados níveis de compreensão da realidade, minha recente percepção sobre os personagens que atualmente encarnam liberalismo (para ser mais exato, o neoliberalismo) brasileiro que surge a partir do movimento recente de “insurgência” de uma, ainda infante, direita brasileira. Entretanto, uso este espaço para agradecer ao grupo de pessoas com quem compartilho embates de alto nível denominado, o Mundo Gira à Direita, em especial aos (que considero amigos) Vinicius Moura Mesquita e Marcos Zucchini. Quem tiver algum interesse em conhecer um pouco sobre este projeto ainda embrionário, acesse a recém-criada página do Facebook em: https://www.facebook.com/omundogiraadireita/.

O CONTO

O garoto LPC (acrônimo para Liberal Politicamente Correto) irá participar de uma competição de natação em que a piscina é composta de uma espessa lama, resultante de uma infindável quantidade de rejeitos e dejetos dos mais variados tipos e níveis tóxicos. A locomoção neste ambiente é extremamente difícil, mesmo assim o garoto LPC se mantem confiante em sua certeza de que sairá vencedor contra os seus oponentes, já acostumados com aquele material, pois restam corrompidos pelas substâncias e tudo o que habita naquele ambiente inóspito.

A crença do garoto LPC se baseia na convicção de que o seu treinamento, realizado em água mineral com excelente pH de nível não inferior a 7, será suficiente para que o mesmo transpasse os obstáculos existentes naquela piscina. adicionalmente, o garoto LPC está certo de que sua limpidez moral, bem como de seu bem tratado corpo, permitirão que ele, ao mesmo tempo em que nada com destino à sua vitória, filtre as impurezas ali existentes, de modo que, ao fim da competição e na ocorrência de sua conquista, apresentará ao público, não apenas a sua vitória inconteste, mas uma água límpida, resultado de seu contato com a mesma.

Contudo, a despeito de suas convicções, o garoto LPC ignora completamente a vantagem competitiva de seus oponentes, mesmo ele tendo lido vários textos de Facebook e de blogs de amigos que coadunam com ele em pensamento, acerca das vantagens competitivas desenhadas por Michael Porter. Ao contrário, o conhecimento adquirido nestas leituras o faz acreditar fortemente que as variáveis competitivas estão a seu favor. Para ele, o fato de ter desenvolvido suas habilidades em ambiente propício para o alcance máximo de sua capacidade, o permitirá sair-se vencedor neste desafio, desconsiderando que o ambiente competitivo não é conhecido por ele, mas pelos seus oponentes.

O garoto LPC, em verdade, não percebe o resultado inequívoco de sua atitude, uma vez que, não apenas sairá derrotado pelos seus oponentes, exímios nadadores naquele ambiente, mas certamente padecerá na tentativa de concluir a prova, por uma possível intoxicação dado o fato de jamais ter tido contato com material tão poluído e nocivo à saúde. Mas desta inabalável crença, percebe-se que boa parte do público vê no garoto LPC um rapaz preparado e capaz de, efetivamente, entregar o resultado anunciado. Esta crença é percebida em sua quase totalidade entre os mais jovens ali presentes, cuja percepção do mundo ainda não contempla experimentações frustradas a partir de premissas inicialmente boas, mas incompletas diante da complexidade inerente ao mundo real. É fato, entretanto que o garoto LPC representa a possibilidade de se ter, finalmente, naquela localidade, um local de lazer acessível à todos, uma vez que aquela água restaria despoluída, ocasionando ainda no afastamento daqueles habitantes que ali reinavam através de sua peçonha inerente ao próprio ambiente. A menor possibilidade de isto se tornar realidade animava aos jovens, sedentos por mais lazer, diversão e liberdade.

Em paralelo a tudo isto, um morador daquela localidade, havia percebido que o problema daquela piscina, se dava pela ausência do filtro de bomba que restava ausente devido um problema mecânico na mesma e que, apesar fácil solução e baixo custo, o problema jamais foi resolvido. Este morador, sabendo do risco que o garoto LPC corria e entendendo que aquela piscina não poderia continuar naquela situação, comprou as peças para reparo da bomba, bem como o filtro e, horas antes do início da competição, passou a realizar o reparo do sistema de bombeamento e filtragem de água. Com o sistema restabelecido fazia-se necessário o esvaziamento da piscina para limpeza e retirada dos itens sólidos de maior volume e posterior enchimento.

Ocorre que quando havia finalizado o processo de evacuação da lama, a população que chegara para assistir à disputa, diante do bradar de reclames do garoto LPC que, entre outras coisas dizia:

"é inadmissível que uma pessoa ache ter o direito de vir aqui e atrapalhar esta competição agindo como um ditador, tolhendo a liberdade das pessoas de competir sem qualquer intervenção...".

Ao passo que, a cada bradar do fervoroso garoto LPC, as pessoas ali presentes, principalmente os mais jovens, se agitavam contra aquele “ditador” que estava atrapalhando o jovem herói de realizar o seu grandioso feito. Ante a pressão e percebendo que, apesar de não estar completamente limpa, se cheia, a água já não ofereceria risco de morte ao garoto LPC, bem como seria “navegável” uma vez a densa lama já havia sido retirada no processo de evacuação inicial. Mesmo não tendo finalizado o processo de limpeza, o pressionado morador ligou a bomba para que a mesma fosse novamente preenchida de água. Para garantir que a água tivesse sua qualidade melhorada enquanto enchia a piscina, o morador garantiu que enquanto fosse bombeada a água para preenchimento da piscina, outro fluxo procedia a sucção da água em menor intensidade, formando um sistema de limpeza dos resíduos de menor densidade, a fim de manter a limpeza da água enquanto enchia-se a piscina e, concomitantemente, entrou no espaço para retirar manualmente os itens de maior densidade, ao passo em que ouvia as críticas daqueles que não compreendiam a impossibilidade do feito do jovem garoto LPC, bem como dos concorrentes que não admitiam, em absoluto, que a água fosse limpa, uma vez que era naquele ambiente inóspito que eles eram dominantes. Neste quesito, o cenário competitivo, desta vez, se tornara um desafio intransponível para os concorrentes do garoto LPC, que não tinham a menor capacidade de nadar em um ambiente que não fosse aquele inóspito.

Com a piscina cheia, ainda com alguma sujeira, mas plenamente “nadável”, a impressão de que o desafio ainda era gigantesco mantinha-se, pois, a mesma cegueira que não lhes permitia enxergar a impossibilidade do sucesso do garoto LPC, também não lhes permitia enxergar a gritante modificação no cenário competitivo. Agora, já não havia mais lama naquela piscina, mas uma água, que ainda que não fosse a ideal para o garoto LPC, era menos ideal ainda para os seus concorrentes. Havia, finalmente a possibilidade real de êxito.Neste cenário, o garoto LPC sai vitorioso.A população local comemora, pois agora conta com uma piscina acolhedora, conquistada apesar de todas as ações promovidas por “aquele” morador que atrapalhou e quase impediu o evento competitivo. O garoto LPC torna-se referência de tudo o que dá certo e passa a ser o objetivo de vida e exemplo para os jovens que testemunharam a sua vitória. Depois de um breve período de recuperação, pois a água, apesar de não mais mortal, ainda não era aquela com a qual ele estava acostumado, retorna para receber o agradecimento da população local. Em pouco tempo a piscina passa a ter uma água incrivelmente límpida, mesmo que todos os dias dezenas de pessoas a utilizem, pois são livres para fazê-lo e todos acreditam ser por causa da limpidez do garoto LPC, que, por sinal, jamais deu um segundo mergulho naquela água. Em um curtíssimo espaço de tempo o garoto LPC passa a buscar novos interesses e deixa para os locais a límpida piscina que “conquistou”, pois, afinal, eles são livres para utilizarem este recurso sem qualquer intervenção, e ele não será o agente que iniciará tal atitude "intervencionista".

Sem conhecer a verdadeira causa da límpida água, e já não contando mais com a presença daquele morador, cuja criação do sistema de bombeamento e filtragem de água se deu por suas mãos, os moradores acreditavam que eram os “valores” defendidos pelo garoto LPC, tais como a liberdade de mercado e individual, cuja a resultante final é apenas 1: “uma economia forte e a consequente capacidade de consumo do cidadão”, que garantiam a limpidez daquela água. Mesmo com o sistema de bombas funcionando, era preciso que algumas regras mínimas de comportamento fossem seguidas para que a água mantivesse-se limpa, como por exemplo: Não entrar sujo na água; não levar itens de consumo para a área da piscina como refrigerantes, comidas e etc.; não levar animais para a área da piscina ou mesmo dar banho na mesma; entre outras medidas. Ocorre que com o passar do tempo, cada uma das restrições naturais para a manutenção do ambiente, foram sendo quebradas, relativizadas e substituídas por outras que garantissem a liberdade de cada individuo que ali frequentasse. Não demorou muito para que os antigos frequentadores passassem a rodear o espaço, e em pouco tempo as pessoas foram se afastando pois a água já não era mais a mesma a passava a ser cada vez mais inóspita para todos os que antes visitavam o local, até o ponto em que o sistema não foi mais capaz de manter-se funcionando e parou, abrindo a possibilidade do retorno inequívoco do antigo cenário.

Ainda que aquele espaço já não fosse mais um ambiente em que todos compartilhavam a felicidade comum, os valores essenciais do garoto LPC permitiu que todos os que vivenciaram aquele período, crescessem financeiramente e pudessem ter em suas casas, suas próprias piscinas, com água de qualidade mineral e pH não inferior a 7, uma maravilha! Para estes estava tudo muito bem, pois eles tinham conquistado o que queriam, mesmo que não soubessem que no lugar deles, surgiram outros jovens que já não contavam com um espaço para compartilhar e vivenciar a liberdade e o lazer que eles vivenciaram. Este cenário é a clara representação do reboot cíclico que aflige as sociedades ao longo de sua existência.

Rodrigo Mendes Carpina. Economista, formado pela Universidade Federal de Rondônia. Especialista em planejamento estratégico e indicadores de gestão para os setores público e privado. Autor do livro "A Estratégia Por Trás Do Balanced Scorecard", publicado pela Editora da Universidade Federal de Rondônia. Idealizador do modelo matemático denominado “Coeficiente de Desigualdade Agregado”, que visa avaliar aspectos relevantes do orçamento estadual, com vistas a ser uma ferramenta de apoio à análise efetuada nos Relatórios Prévios do TCE/RO. Atuou, no ano de 2013, na revisão do Mapa Estratégico do Estado de Rondônia. Já atuou no setor cooperativo de crédito (SICOOB Central Norte) e de educação (Regional Senac/RO) sempre à frente de ações de planejamento e relacionamento com entidades de controle externo e auditoria. Atuou, em 2017, na consultoria que elaborou o Planejamento Estratégico da Secretaria de Finanças do Estado de Rondônia – SEFIN/RO. Atualmente, desenvolve soluções voltadas para o Setor Público com a aplicação de Data Intelligence (Business Intelligence – BI), de modo a correlacionar as ações e medidas estratégicas e apoiar o desdobramento da estratégia aos níveis táticos e operacionais, promovendo a relação de Causa e Efeito previsto no modelo BSC.

 
 
 

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