CULTURA SINDICAL E PRODUTIVIDADE – PARTE I
Atualizado: 19 de fev. de 2021

O QUE SABEMOS SOBRE A ESSÊNCIA DO PENSAMENTO SINDICAL?
Você já se perguntou qual a quantidade de valores, códigos sociais, preceitos e demais premissas, sejam sociais, morais internas, ou mesmo imposição externa, às quais estamos todos sujeitos? Já se perguntou o que, de fato, é seu pensamento ou mesmo qual a verdade que lhe faz ver sentido nas coisas?
Esta questão busca apenas preparar-nos à leitura das provocações a seguir. Senão vejamos: Se questionado, hoje, qualquer trabalhador sobre o papel dos sindicatos, o que obteríamos como resposta? Fico apenas na retórica.
A fim de não discorrer sobre algo que já escrevi anteriormente, transcrevo abaixo, texto produzido em 2015, e de conhecimento de muitos, no qual escrevo a um preclaro sindicalista e onde expresso não apenas a forma como vejo o sindicalismo no seu contexto sociocultural, mas na forma de pareamento das forças e interesses existentes no modelo capitalista. Por óbvio, excluí a parte introdutória, onde seria possível identificar o destinatário, mas o conteúdo permanece o mesmo:
“(...) Um primeiro aspecto é que este movimento tem seus primeiros passos “a pé” no final do século XVIII. Os movimentos sindicais, surgem para dar suporte aos trabalhadores que estavam desempregados por conta dos processos inerentes ao fenômeno que ficou (e é até os dias atuais) conhecido como revolução industrial. O fato é que este movimento tratava da ajuda mutua entre seus participantes. Aqui percebe-se claramente o escopo e o papel da pecúnia no movimento sindical originário. Os valores eram convertidos diretamente a benefícios para estas pessoas. Posteriormente, por volta de 1830, os sindicatos buscavam equilibrar, em uma sociedade capitalista, o impacto direto na disponibilidade de emprego (para isto ver análise microeconômica do chão de fábrica) com a evolução tecnológica nas indústrias emergentes. O movimento buscava equilibrar o nível de desemprego com a evolução tecnológica à época (para isto ver o fenômeno da administração científica e suas raízes).
Disto surge a primeira questão: Como equilibrar demanda por mão de obra e evolução tecnológica? A resposta é simples: promovendo a capacitação da mão de obra. Com isto aumenta-se o valor agregado e produtividade acarretando no aumento dos salários. Aqui surge novamente um novo desafio aos movimentos de representação. Pois o que se verificava nesta época (principalmente no período caracterizado pelo fenômeno conhecido como “Segunda Revolução Industrial”), era que os salários não cresciam na mesma proporção da produtividade. Neste momento os sindicatos organizados passam a lutar por melhoria das condições de trabalho e adequação salarial. Disto, trago outra questão (esta deixo para que responda a si mesmo): Os movimentos sindicais estão efetivamente contribuindo para o equilíbrio econômico em nosso País, mantendo-se fieis ao seu conceito/essência originários?
Veja, pergunto: onde está a resistência neste questionamento?
Por fim, recomendo o estudo do teorema econômico da inflação de custos sendo este, ao meu ver, complemento de outro teorema desenvolvido por William Phillips, denominado a curva de Phillips. O movimento sindical tem direta responsabilidade por parte da inflação de custo em nosso País, pois se preocupa em promover melhorias salariais sistemáticas, sem promover junto aos trabalhadores a melhoria da eficiência da mão de obra que “representa”. No fim desta caminhada o que se tem é o inevitável, o desequilíbrio, que traduz-se em desemprego, pois o aumento da massa salarial sem aumento da produtividade contribui para o fomento do processo inflacionário, o que faz com que o já citado aumento da massa salarial não represente aumento do poder de consumo, pelo contrário, gere a perda do poder de compra. Como efeito tem-se a queda no consumo e/ou aumento da inadimplência na proporção da disponibilidade de crédito, caso haja este tipo de oferta; resultado: desequilíbrio = desemprego.
Certo que as variáveis de um modelo econômico são inúmeras, apenas trago aqui, minha humilde contribuição para esclarecer o meu ponto de vista, quanto a este aspecto, que para você, traduz-se em uma reles resistência.
No mais, me coloco à disposição para continuar efetuando minhas contribuições a você e, por extensão, a este egrégio Sindicato, que quero ver cada vez maior, na esperança de que este (como tantos outros) se torne maior que seus líderes.
Atenciosamente."
Com este texto, o que obtive como resultado à época foi um grande... nada. A bem da verdade, nenhuma das lideranças sindicais que receberam este texto em cópia, sequer perdeu seu precioso tempo para ler o que eu havia escrito. Como resposta, o que obtive foi mais um convite para me filiar (e pagar) ao sindicato, sem contar os movimentos de bastidores para me calar. E é neste ponto que podemos concluir que não há conhecimento profundo da verdadeira vocação de um militante sindicalista. A conclusão, pessoal e intransferível, que posso chegar é a de que não há líder sindical, ao menos conhecido por mim, que, de fato, tenha espírito de servir e menos ainda, de promover as mudanças necessárias para garantir emprego, dignidade e crescimento aos seus representados.
A PRODUTIVIDADE DA MÃO DE OBRA BRASILEIRA
Baseado na narrativa acima exposta, resta-nos compreender, para fins didáticos, qual a relação entre o desconhecimento da essência do pensamento sindical e a produtividade da mão de obra brasileira. Para tanto, é importante dar base ao cenário atual desta referida mão de obra. Pois não há como definirmos uma relação sem considerar um dos parâmetros envolvidos. Assim, apresento um gráfico obtido através do projeto “our world in data” (“nosso mundo em dados”) que é desenvolvido pela Oxford Martin School, apoiado e financiado pelo Institute for New Economic Thinking e Nuffield Foundation.

No gráfico acima vemos uma comparação entre o Brasil, Estados Unidos e Argentina, no tocante a produtividade da mão de obra por hora de atividade laboral. Vemos que, desde 1950, o Brasil tem uma produtividade evidentemente abaixo das duas Nações de comparação. Tomando por base esta data, faz-se importante informar que nas décadas de 1930 e 1940 o contingente trabalhista filiado à sindicatos chega a números recordes no País, e as crises e greves tornam-se frequentes, em nome do ideário socialista, conforme fontes apresentadas nas notas de rodapé [1][2]. Esta contextualização histórica serve apenas para ilustrar o cenário comparativo, pois entre as décadas de 1930 e 1940 a Argentina foi governada, sua maioria, por militares e entre 4 de junho de 1946 e 20 de setembro de 1955, o País foi governado por Juan Domingo Perón que iniciou no partido laborista e terminou seu mandato no partido justicialista. Já nos Estados Unidos, a estabilidade política permite que nessas duas décadas houvessem apenas dois presidentes: Franklin Delano Roosevelt, entre março de 1933 e abril de 1945 e; Harry S. Truman, que era vice-presidente de Roosevelt, e assume a presidência após sua morte, seguindo seu mandato até janeiro de 1953. No brasil, as décadas de 1930 e 1940, são marcadas pela revolução de 1930, promovida pelos representantes da política do café-com-leite, liderada pelo Governador de Minas Gerais Antônio Carlos Ribeiro de Andrada que apoiava a candidatura de Getúlio Vargas em oposição à proposta paulistana de indicar o Governador de São Paulo Júlio Prestes, que nunca assumiu. Em seu lugar, assume, em outubro de 1930, a junta governativa provisória encabeçada pelo General Augusto Tasso Fragoso, que entrega o poder à Getúlio Vargas em novembro de 1930, marcando a fase da Nova República. Após grande crise política, em 1945, fortemente pressionado, Getúlio Vargas deixa o Governo, assumindo interinamente, José Linhares, que fica até janeiro de 1946, dando lugar a Eurico Gaspar Dutra, que foi apoiado por Getúlio Vargas, permanecendo até 1951, quando, Getúlio, retorna à Presidência.
Ainda que não aparentemente, essas informações ajudam a compreender a questão da produtividade brasileira, uma vez que a instabilidade política, acaba promovendo a ascensão de “salvadores da pátria” que por vezes, para ludibriar sua audiência toma medidas populares, mas com alto custo na produtividade. Senão vejamos, a era Vargas foi uma das que mais fomentou o sindicalismo na estrutura estatal, sendo visto atualmente, como um estrategista por alguns sindicalistas, uma vez que o entendimento é de que esta lógica perverteria a concepção marxista original do socialismo sindical.
Seguindo em nossa busca de contextualizar os dados apresentados, verificamos que a partir da segunda metade da década de 1960, o Brasil passa a ter uma curva de ascendência que se mostra no seu auge em 1976. Após uma década praticamente estável, a partir de 1991, com a chegada do primeiro presidente eleito pelo voto direto, após a redemocratização do País, a produtividade brasileira ganha novo fôlego. A abertura da economia brasileira para importação e a consequente “importação” da mão de obra estrangeira passa a influenciar nessa variável. Contudo, somente com o advento do Plano Real, essa tendência se confirma. No ano de 1999, se verifica uma nova queda a produtividade brasileira, e dessa vez, por conta da crise russa e a consequente política de desvalorização cambial promovida pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso.
Em 2006 se verifica uma nova ascendência na produtividade brasileira, devido, principalmente aos preços das commodities que alavancaram os investimentos no País, gerando maior produtividade, principalmente em relação à formação bruta de capital fixo. Esta tendência passa pela crise de 2008, sem variação que a ameaçasse, tendo seu fim apenas no ano de 2013. Neste mesmo ano, o Governo Federal busca incentivar a economia através de medidas como a redução da tarifa de luz e a desoneração da cesta básica, entre outras, tal qual o Programa Mais Médicos.
A seguir, apresentamos o quadro que mostra a evolução da produtividade da mão de obra no Brasil entre 1950 e 2016.

Com isto é possível perceber que, apesar de permanecermos abaixo da Argentina, reduzimos, após 6 décadas, a diferença existente na década base de 1950. Contudo, vemos claramente que os Estados Unidos, que já contava com uma produtividade absoluta muito acima neste comparativo, foi capaz de apresentar um aumento no valor nominal do indicador, mesmo que, em termos percentuais, a evolução apresentada seja inferior à brasileira.
E O QUE TODOS ESSES DADOS DIZEM EM RELAÇÃO AO PAPEL DOS SINDICATOS NA PROMOÇÃO DA PRODUTIVIDADE DA MÃO DE OBRA?
Todas essas informações rondam aparentemente soltas em meio ao calhamaço de dados sem aparente correlação e fazem parecer que não se diz nada com nada em relação ao objeto e escopo deste texto. Mas garanto que isto é apenas uma impressão. A bem da verdade, lembremos da disposição original dos movimentos sindicais que buscavam, através da ajuda mutua, socorrer os pares trabalhadores em momentos de dificuldade. Disto surge a questão: você, sindicalizado, sente-se amparado pelos representantes de sua classe? Já teve alguma experiência em que ao não ser filiado contou com pleno apoio de seu representante de classe? Você sente que o seu emprego depende da defesa do sindicato que te representa?
Claro que questões como esta fogem à imparcialidade exigida de um texto minimamente técnico. Contudo, se a técnica por sua vez não deve ser parcial, a busca pela compreensão da realidade nos obriga a lidar com questões até mais graves. Contudo, é fato que não há a intenção de aprofundar esta corrente do pensamento, mas apenas, gerar provocações desconfortáveis, objetivo que acredito já ter alcançado.
Considerando as informações trazidas até aqui, podemos concluir que o papel dos sindicatos brasileiros, se restringiu mais ao aspecto ideológico, constituindo-se no seu viés partidário já na década de 1930. O que, por sua vez, fez com que a gênese do pensamento sindical original fosse perdida ou esquecida no meio dos interesses individuais de seus líderes. De forma mais clara, percebe-se ainda que nos últimos oitenta anos as ações dos sindicatos não foram mais benevolentes aos trabalhadores do que as ações dos capitalistas e empreendedores brasileiros, pois o investimento composto na formação bruta de capital fixo, é vetor incontestável na melhoria das condições de trabalho bem como no aumento da produtividade sem aumento das variáveis de trabalho: hora e jornada de trabalho.
Desafio qualquer sindicalista demonstrar cabalmente que o investimento constante na formação bruta de capital fixo não melhora as condições de trabalho e renda dos trabalhadores. Neste sentido, o que se vê historicamente é o uso da plataforma sindical para fins políticos promovendo paralisações em massa que não visam a manutenção dos empregos uma vez que não se leva em conta a necessidade de capacitação para adequação e melhoria da mão de obra, mas apenas dos salários, o que, por sua vez, como já vimos, leva ao colapso do sistema, gerando desemprego para que se promova os ajustes nos custos da mão de obra. Assim, uma mão de obra cara e de baixa produtividade, desestimula o investimento fazendo com que este se foque, principalmente na mecanização como substituto da mão de obra, provocando, por parte dos empresários, e não dos sindicatos o aumento na procura por capacitação e especialização pelos trabalhadores. Com isto tem-se ganho real na qualidade e renda do trabalhador.
Por fim, a resposta para a pergunta deste tópico: “e o que todos esses dados dizem em relação ao papel dos sindicatos na promoção da produtividade da mão de obra?” é muito simples. Nada! Isso mesmo, o que os dados apresentados demonstram é que a variação na produtividade da mão de obra brasileira se deu por fenômenos econômicos descolados das ações sindicais.
O EPÍLOGO DE UM PRÓLOGO
Certo é, que somente conhecendo a história e seus sinuosos enredos e desfechos é que podemos compreender o vitral que compõe o pensamento da representatividade de classe, como aí está. Considerando este um tema extremamente sensível, principalmente porque mexe com interesses quase feudais, faz-se relevante tornar este texto num prólogo, que se desenrolará em sua segunda parte, num composto de diversos dados que visam afirmar a compreensão aqui defendida. Com isto, ficamos por aqui, desejando que a representatividade seja erguida como a ode aos que deram duro em nome de suas famílias e seu País buscando deixar uma herança que fosse além dos bens aos filhos e esposas, mas de um mundo melhor talhado pelas mãos calejadas daqueles que, através do seu trabalho, produzem mais riqueza do que os que lhes representam.
E, novamente, apenas uma provocação para nosso próximo texto: por que representantes sindicais buscam tanto a ascensão em uma carreira política, quando sequer constituíram resultados críveis para seus representados?
Referências Citadas:
[1] ORIGENS DO SINDICALISMO NO BRASIL (SINTSEF):
http://www.sintet.ufu.br/sindicalismo.htm#ORIGENS%20DO%20SINDICALISMO%20NO%20BRASIL
[2] HISTÓRIA DO SINDICALISMO NO BRASIL:
http://www.sintet.ufu.br/sindicalismo.htm#HIST%C3%93RIA%20DO%20SINDICALISMO%20NO%20BRASIL
Rodrigo Mendes Carpina. Economista, formado pela Universidade Federal de Rondônia. Especialista em planejamento estratégico e indicadores de gestão para os setores público e privado. Autor do livro "A Estratégia Por Trás Do Balanced Scorecard", publicado pela Editora da Universidade Federal de Rondônia. Idealizador do modelo matemático denominado “Coeficiente de Desigualdade Agregado”, que visa avaliar aspectos relevantes do orçamento estadual, com vistas a ser uma ferramenta de apoio à análise efetuada nos Relatórios Prévios do TCE/RO. Atuou, no ano de 2013, na revisão do Mapa Estratégico do Estado de Rondônia. Já atuou no setor cooperativo de crédito (SICOOB Central Norte) e de educação (Regional Senac/RO) sempre à frente de ações de planejamento e relacionamento com entidades de controle externo e auditoria. Atuou, em 2017, na consultoria que elaborou o Planejamento Estratégico da Secretaria de Finanças do Estado de Rondônia – SEFIN/RO. Atualmente, desenvolve soluções voltadas para o Setor Público com a aplicação de Data Intelligence (Business Intelligence – BI), de modo a correlacionar as ações e medidas estratégicas e apoiar o desdobramento da estratégia aos níveis táticos e operacionais, promovendo a relação de Causa e Efeito previsto no modelo BSC.




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