CULTURA SINDICAL E PRODUTIVIDADE – PARTE II
Atualizado: 22 de mai. de 2020

A “QUEM” INTERESSA A EXISTÊNCIA DA ESTRUTURA SINDICAL?
Thiago Barison, em sua tese de doutorado intitulada “A estrutura sindical de Estado no Brasil e o controle judiciário após a Constituição de 1988”, traz à discursão uma nova perspectiva analítica que busca evidenciar os “efeitos econômicos e político-ideológicos sobre o movimento sindical”, analisando o pensamento juscoletivo onde o sistema sindical passa a ser analisado “não como um sistema de ‘representação de interesses’ ou de ‘solução de conflitos’ e sim como um sistema de controle estatal sobre o movimento dos trabalhadores”.
Desta forma, e para não dar maior (ou excessiva) extensão a este artigo, trago o cerne da questão apresentado por Barison em 4 tópicos livremente construídos e interpretados segundo análise deste que vos escreve, sem deixar de recomendar, no entanto, para aqueles que não se furtam a uma boa leitura, que leiam a tese completa, largamente disponibilizada na internet. Antes de seguir, aviso que o desafio de compendiar uma tese de doutorado em aproximadamente 2 páginas, faz com que o texto resultante seja de um peso nada amigável. Desta forma, mesmo com um enorme esforço para fazer caber em tão poucas linhas a abordagem essencial de Barison, assumo que certamente faltaram aspectos que, ao menos ao Autor, seriam essenciais para a correta compressão da tese, mas que para a intenção simplória deste artigo, não o torna condenável ou inválido. Portanto, antecipo ao leitor, que guarde muita paciência e disposição para digerir a pesada exposição de conteúdo que segue:
A estrutura sindical brasileira é caracterizada pela “dependência político-ideológica do movimento sindical dos trabalhadores perante o aparelho de Estado e a legalidade burguesa”. Ou seja, a partir destes extremos o movimento se alimenta sem, contudo, evidenciar tal relação ocultando o real motivo de sua existência por meio da ideologia da “luta trabalhista”, o que o aproxima de seu público de interesse, mas que no conteúdo (que está escondido sob a declaração ideológica) busca tão somente a conquista de espaços de poder sob o pretexto da representatividade. Afinal, quem nunca ouviu o termo “Sindicato Forte” para demonstrar a importância de se ter o maior número possível de representados sob sua tutela. A estrutura sindical de Estado tem a função geral de promover a “desorganização, moderação e controle do movimento sindical dos trabalhadores pelo aparato estatal”, sendo o aparato estatal, as tão prolatadas instituições e o arcabouço legal inerente. A própria CLT é, no orbe legal, instrumento do aparato estatal à serviço da estrutura sindical de Estado. Desta forma, resta evidente que a relação juscoletividadeXEstado, nada mais é do que um modelo de Poder através do qual se mantêm “abaixo”, os representados e “acima”, os representantes.
Conforme pincelado na parte I deste artigo (leia aqui), os movimentos e entidades sindicais brasileiros não tiveram como sustentáculo de suas forças de expansão os ideais trabalhistas, sendo estes ideais apenas o escudo protetor (e de cegueira) das reais intenções de seus líderes e patrocinadores, pois, conforme evidenciado por Barison, as entidades de Estado (dentre elas, mais fortemente, o Ministério do Trabalho, a partir da década de 1930) foram as grandes articuladoras e garantidoras legais deste movimento no Brasil. Mesmo que, a partir da Constituição de 1988, o poder judiciário passe a ter a responsabilidade pela organização das relações pelos meios processuais de forma a dirimir os conflitos provenientes da representação sindical, tem-se que o Ministério do trabalho manteve seu poder, principalmente no campo regulatório. Este apoio estatal concedeu ao movimento sindical a força de uma corporação que se confunde com a própria gênese do Estado enquanto centralizador do Poder popular por meio da representatividade, uma vez que este mesmo Estado, em seu âmbito jurídico-legal, deu a outorga do monopólio da representação dos trabalhadores aos sindicatos legalmente estabelecidos, segundo as regras destas mesmas instituições que, agora, passam a regulamentá-los. De forma prática, a estrutura sindical fomentou o acirramento da dicotomia entre liberalismo (menos Estado) e Corporativismo (Estado interventor e com instituições fortes), bem como da distribuição de riqueza entre a chamada burguesia (inicialmente, o capitalista) e a classe trabalhadora (como se o capitalista não trabalhasse para promover a acumulação de seu capital).
Por meio da Estrutura Sindical de Estado, este último se coloca no domínio das duas principais frentes de articulação possíveis no orbe da representatividade dos trabalhadores, a saber: a) intervenção no mercado de trabalho, ou seja, no direito individual de negociação e de escolha entre o trabalhador e o empregador e; b) intervenção na organização da classe trabalhadora, ou seja, na apropriação do poder de organização coletiva inerente à origem do movimento sindical nos idos do século XVIII conforme mencionado na primeira parte deste artigo (leia aqui). Na prática, o que se vê é a dominação do discurso revolucionário da luta de classes proposto por Karl Marx pelo próprio Estado e seus agentes que, não necessariamente, são detentores de cargos públicos (o que não os impede de usar os recursos públicos para seus desígnios de foro privado), sendo estes últimos, apenas soldados de alta patente, mas ainda assim, obedientes às ordens superiores. De forma objetiva, neste ponto, a estrutura Sindical de Estado garante aos “amigos do rei” a disposição das facilidades de produção e aos “inimigos” (ou seja, todo aquele que não estiver dentro do jogo político cleptocrático [1]) as dificuldades e ao ostracismo de oportunidades. Objetivamente, a junção desta característica com aquela expressa no primeiro item deste compêndio, permite o desenho de um regime similar, pelo menos no orbe econômico, ao Fascismo visto na Europa do início século XX. Ainda que pareça uma comparação um tanto quanto forte, não devemos ignorar que o movimento fascista fundado na Itália em 1919 por Mussolini, contou com a participação (como fundadores) de alguns líderes revolucionários sindicalistas, como Agostino Lanzillo e Michele Bianchi. Contudo, e, não obstante à similaridade aqui expressa, tem-se que reconhecer que estas relações espúrias não nos são estranhas, pois basta olharmos perfunctoriamente para cenário brasileiro sob o prisma da Operação Lava-Jato que veremos esta mesma pintura, como se uma cópia fosse da história recente.
A partir da Constituição de 1988, o movimento sindical brasileiro modifica sua atuação sob a perspectiva de Estado e passa a atuar sob a perspectiva de Governo. Isto ocorre, principalmente, porque a partir deste período a relação ideológica de Estado perde seu sentido, dado que o judiciário passa a ser um intermediador apenas dos conflitos advindos da relação trabalhista, e não mais da ideologia sindical como ocorria em sua origem no Brasil. Esta mudança é crucial para o surgimento dos movimentos sindicais que ficaram conhecidos como novo sindicalismo. Este formato foi encabeçado pelas alas mais combativas do movimento operário, sendo liderados pelas bases sociais tais quais a CUT e o PT. Estas novas lideranças promoveram a ruptura com o padrão de sindicalismo desenhado no início do século no Brasil, passando a olhar a relação com a sociedade e o Estado no horizonte ideológico dos Governos, fomentando a participação cada vez mais ativa no campo político-partidário. Como resultado, a Estrutura Sindical de Estado passa a promover uma série de modificações institucionais que centram-se na “organização sindical; produção normativo-legal; e ação sindical de massa”.
Neste cenário, as lideranças sindicais passam a tratar a questão ideológica como ferramenta para a obtenção de poder no horizonte de curto prazo (no período de “Governos”), sem jamais esquecer do plano de longo prazo que é a criação de um poder totalitário com vistas a criação de uma Nova Estrutura Sindical que se confunda com o próprio Estado ao ponto desta estrutura se tornar, por fim, o Estado, invertendo a relação original de dependência (existente no início do século XX). De forma prática, a Nova Estrutura Sindical passa a utilizar 2 estratégias que, juntas, visam a obtenção e sua manutenção do (e no) poder de Estado, a saber:
Tomada de espaços de poder no campo político-partidário. Esta estratégia se mostra imprescindível pois o combate frontal com um adversário que detém mais recursos é, na prática, uma derrota antecipada. Desta forma, sabendo que apenas esbravejar contra os Governos e suas políticas teria como efeito nada além do que o desgaste natural do movimento, essa Nova Estrutura Sindical passa a adotar os fundamentos metodológicos propostos por Saul Alinsky, dentre os quais destaco: “não se deve lutar diretamente contra o sistema, deve-se penetrar nele por vias usuais e implodi-lo a partir de dentro”.
A revolução cultural, com seus valores político-sociais e econômicos, amplamente difundida e enraizada ao longo das décadas no século XX, passa a ser um importante ativo para a formatação do discurso desta nova estrutura, pois, historicamente, os processos revolucionários em todo o mundo (no Brasil não foi diferente), ocorreram, em sua quase totalidade (senão em sua totalidade) de maneira passiva, ou seja, sem a participação das massas (aquelas mesmas representadas/manobradas pela Estrutura Sindical), deixando claro que o processo revolucionário histórico sempre foi pautado pela Supremacia mas nunca pela hegemonia; e neste ponto faz-se necessário compreender esta diferença, pois no campo da supremacia, tem-se a submissão de uma maioria ao ideário de uma elite que impõe sua agenda através do consenso passivo. Já no campo da hegemonia, tem-se que o consenso é construído e sedimentado por uma maioria, em detrimento de uma minoria. E aqui põe-se uma questão importante, a saber: como é formado o consenso hegemônico? E de forma direta respondo: por meio da cultura. Portanto, aqui evidenciamos o imenso valor que a revolução cultural promovida no Brasil nos moldes idealizados por Antonio Gramsci, tem para a conquista da hegemonia cultural e tomada de poder no País por esta Nova Estrutura Sindical.
Não obstante a essas duas estratégias, tem-se mais recentemente a dialética das minorias, que insurgem contra aquilo que o próprio movimento de esquerda propôs para a chegada ao Poder, tornando este um movimento de manutenção de poder. Contudo, não cabe aqui, discorrer sobre o tema, mas apenas externar o conhecimento deste fenômeno para separá-lo de nossa abordagem neste artigo.
Dispostas as estratégias e o contexto histórico do movimento que constituiu a Estrutura Sindical brasileira, resta claro que os interessados na existência e manutenção da Estrutura Sindical de Poder são todos aqueles que surgiram para a vida política a partir deste movimento. Prova cabal desta relação é a chegada de um líder sindical à presidência do País em 2002. Não obstante, antes mesmo da conquista deste “troféu”, a Estrutura Sindical logrou diversas vitórias no campo político e cultural, dominando espaços vazios de representatividade em todas as esferas.
A QUESTÃO NÃO RESPONDIDA
Ainda na primeira parte deste artigo (leia aqui), foi levantada uma questão que deverá ser, agora, respondida, a saber: “Por que representantes sindicais buscam tanto a ascensão em uma carreira política, quando sequer constituíram resultados críveis para seus representados?”.
Antes de irmos ao cerne da questão, vale ressaltar que naquele momento demonstramos, com dados, que a representação sindical não melhorou a produtividade dos trabalhadores, nem estimulou de forma direta a melhoria das condições de trabalho, mas que, na contramão disto, foi forte contribuinte para a inflação de custos e a baixa produtividade da economia brasileira. Ademais, o sindicalismo brasileiro foi evidenciado como um dos responsáveis pelos ciclos de desemprego no País, uma vez que desestimula o investimento através de suas ações de coação para o aumento da massa salarial sem fomentar o aumento da produtividade da mão de obra. Caso, esta, lhe pareça uma abordagem um tanto quanto forçada trago um caso prático que demonstra claramente que a Nova Estrutura Sindical, por meio de um de seus institutos estatais, a justiça, promove a elevação dos preços dos bens disponíveis na economia, bem como desestimula o investimento privado dado o imbróglio burocrático que patrocina e provoca a elevação do desemprego pelo consequente ajuste da demanda (para baixo). Estou a citar o caso da decisão proferida pela justiça do trabalho de Minas Gerais, que, no juízo da 33ª vara de Belo Horizonte/MG, reconheceu, na data de 13 de fevereiro de 2017, a existência de vínculo empregatício entre um motorista e a empresa de tecnologia Uber. Senão vejamos, nesta relação não há sequer relação de subordinação, nem determinação de horários por parte da empresa, ficando o motorista livre para trabalhar no dia em que quiser, no horário que bem entender e se quiser, sendo livre ainda para desinstalar o aplicativo ou se descadastrar quando bem entender, sem maiores complicações burocráticas. Mesmo assim, o braço jurídico da Estrutura Sindical, através do campo ideológico da “proteção ao trabalhador”, ao ser provocado por este motorista (que, de má fé, impetrou a ação), entendeu que a empresa deve arcar com todos os custos trabalhistas inerentes a uma relação de emprego, tais como: FGTS, 13º salário, aviso prévio, horas extras, adicional noturno e etc. Não obstante, na ótica do Juiz do Trabalho, a UBER deverá arcar ainda com as despesas das multas inerentes ao fim de relação trabalhista, segundo sua ótica. De forma prática, tem-se que a UBER veio dar corpo à livre iniciativa ao um nicho em que, antes, havia o monopólio caro, altamente regulado pelo Estado e de baixa qualidade, os táxis, gerando oportunidades às pessoas com perfil para tal, gerarem renda por meio de sua plataforma. A fim de evitar maior extensão, deixo o link para a decisão do magistrado, promovendo apenas a seguinte provocação: “se a lógica da relação de trabalho sob a perspectiva do UBER prevalecer, então os vendedores da OLX e do Mercado Livre, bem como da plataforma de venda do Magazine Luiza ou mesmo, os próprios taxistas, que são obrigados a seguirem regras pré-estabelecidas pelo Estado, seriam todos profissionais com vínculo trabalhista não reconhecido?”. Por fim, os custos inerentes à “estatização” da iniciativa privada e individual nada mais é que o ranço da Estrutura Sindical Estatal que, na lógica da Nova Estrutura Sindical é o próprio Estado, deixando claro o legado da cultura sindical brasileira e seus líderes, evidenciando os resultados que estes são capazes de entregar à sociedade.Findo este prelúdio, vamos à resposta da questão apresentada no início deste tópico.
A questão parte do princípio que líderes sindicais buscam ascensão política por meio das eleições, sejam elas municipais, estaduais ou federais. O maior símbolo desta busca é o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, que chegou à presidência do Brasil no ano de 2003, mas ele não foi e nem é o único, pois existe uma infinidade de lideranças que buscam esta ascensão. Este fenômeno se deve ao caráter de domínio Estatal da Nova Estrutura Sindical, que tem seu ápice na consecução do Estado Sindical, onde a Estrutura Sindical é o próprio Estado.
Cito como base desta afirmação o estudo de Leôncio Martins Rodrigues, intitulado “Mudanças na classe política brasileira, publicado pelo Centro Edelstein de Pesquisas Sociais no ano de 2009 e disponível na internet [2]. Neste estudo, Rodrigues (2009) faz uma profunda análise das transformações políticas no Brasil a partir das flutuações de ocupação de espaços na Câmara Federal. Em seu estudo, Rodrigues analisa “as profissões da profissão política” e externa o seguinte:
“Basicamente, as flutuações partidárias ocorridas em 2002 correlacionam-se à ascensão da importância de certas fontes de recrutamento para a classe política, especialmente daquelas que vêm das camadas populares e se utilizam mais frequentemente dos sindicatos e das igrejas pentecostais para entrar na classe política”. (grifo nosso)
Na prática, esta abordagem demonstra que a classe sindical tem sido, há muito, o celeiro de onde se alçam as lideranças políticas no Brasil. Um movimento mais recente é o das igrejas evangélicas, mas não trataremos disto dado que não é o foco deste artigo; seguimos.
Não obstante ao disposto por Rodrigues, vale salientar que o orbe político é, historicamente, celeiro das castas públicas, ou seja, do serviço público, que, diante das garantias legais inerentes ao setor e de seu consequente corporativismo, o afã torna-se mais natural e seguro, pois muito dificilmente as ações praticadas no âmbito político o levará à demissão futura. Vide como exemplo inconteste o caso do ex-senador Demóstenes Torres que ao ser cassado em 2012, retornou à função pública de Procurador da Justiça de Goiás. Essa característica garantiu a esta categoria, enorme participação até o início da década de 90, quando a figura dos marajás do setor público tornou-se evidenciada por meio da estratégia de campanha do então candidato à presidência Fernando Collor de Melo. Este cenário de degradação da imagem das elites do setor público abriu espaço, sem que houvesse qualquer revolução, para os que vinham de baixo, ou seja, para as massas, as quais, assim que ascenderam a este novo patamar, “logo se adaptaram às regras, normas, valores e práticas do funcionamento do político” (RODRIGUES, 2009).
Dado o contexto geral, tem-se, portanto, que a motivação para os líderes sindicais tomarem o espaço político brasileiro, advém destes vácuos de representatividade junto ao público eleitor culminada com a proposta estratégica da Estrutura Sindical de tornar-se o Estado, numa visão apocalíptica da vitória hegemônica e do estabelecimento da supremacia sindical no País e no mundo. Uma questão relevante é: “todos os líderes sindicais têm compreensão deste ideal?”. A resposta objetiva é: “não”. E é neste ponto que surge a face perversa da dominação sindical e a origem - e aqui reputo apenas uma previsão pessoal - de sua consequente queda. Na prática, os líderes sindicais, dominaram os espaços de Poder, não pela crença absoluta no ideal sindical, surgida ainda nos idos do século XVIII, mas pelo seu uso em prol dos interesses pessoais e dos grupos de poder instalados nas repartições sindicais. Ou seja, a partir da construção de uma hegemonia representativa e da tomada de espaços de poder, o movimento e seus novos líderes, que não foram os idealizadores da Nova Estrutura Sindical, cujo o objetivo era o alcance do Estado Sindical, passaram a fazer mero uso do discurso ideológico sem sequer compreendê-lo em sua gênese, bastando apenas contrapô-los com a própria história para identificar tal fato.
Apresentada as perspectivas de Poder do lado da elite pública e da elite sindical, tem-se que o cenário estabelecido por meio da expansão sindical para dentro do Estado, representa uma inversão na relação anterior, uma vez que, no cenário em que as castas públicas, por meio da supremacia, buscavam a hegemonia através do aparelhamento político, a Estrutura Sindical, enquanto poder hegemônico das massas, buscava sua expansão por meio da política e do aparelhamento público, a fim de se tornar Estado. Em suma, o objetivo final desta luta é a obtenção do Poder Absoluto, cabendo aqui, apenas para fins informativos, lembrar que este é também o objetivo de uma terceira perspectiva de poder, a religião, que neste artigo foi ignorada por uma questão meramente temática.
Esta batalha pelo poder absoluto, vem dando o tom das políticas públicas na história republicana brasileira e tem sido, em grande parte, a origem das mazelas provocadas pela ação do Estado na vida do indivíduo. Afinal, é a luta pela obtenção do poder absoluto que direciona as ações do Estado ao passo que encarece a república por conta da corrupção, como meio de obter vantagem competitiva neste jogo.
Diante de tudo o que foi exposto até aqui, a resposta para a questão apresentada no inicio deste tópico, para lembrar: “Por que representantes sindicais buscam tanto a ascensão em uma carreira política, quando sequer constituíram resultados críveis para seus representados? ”, se torna óbvia, pois já sabemos que estes representantes são movidos pelo simples desejo de poder utilizando-se do discurso ideológico do qual eles sequer têm conhecimento profundo, repetindo apenas os cacoetes comuns de: “luta”, “em prol do trabalhador” e etc. Estes representantes em sua plena maioria (creio, por prudência, na existência de poucos bons), estão preocupados com qualquer coisa, menos com o trabalhador, senão, por que teríamos tantos desses líderes lotados em cargos públicos, cujo resultados de suas ações não superam sequer o fisiologismo?
O PROPÓSITO DE UMA IMAGEM
Todos os artigos publicados no “Blog da SY” são encabeçados com uma imagem [3] que busca sintetizar o que será expresso no texto, buscando ser uma representação gráfica do conteúdo e contexto apresentados. Desta forma, cada imagem é parte não escrita da mensagem existente em cada artigo e visa impactar o leitor de maneira mimetizada ao que se encontra no escrito. Assim sendo, a imagem deste artigo tem um intento que merece ser destacado aqui, a fim de permitir o completo esclarecimento do impacto da, aqui denominada (por fim), cultura sindical na vida das pessoas por meio de seus efeitos na produtividade da mão de obra brasileira.
Na imagem que encabeça este artigo, ao fundo, vê-se uma criança em uma mina de ouro, no território de Watsa, na República Democrática do Congo, no ano de 2004. No contraponto, em destaque maior, há um homem bem alinhado, com vestimenta comum à segunda metade do século XIX, como representação dos intelectuais e políticos do final século XIX e tem a intenção de evidenciar a figura do burocrata em nossa realidade. O Homem está de costas para a cena atrás de si, e para a criança, parecendo não se importar em nada com o cenário, enquanto ajusta sua gravata.
Esta cena busca demonstrar dois aspectos importantes apresentado neste artigo. O primeiro diz respeito ao caráter indolente dos agentes que fazem o jogo político de poder em relação àquilo que sua posição lhes impõe como mérito da sua própria existência naquele estado ou situação. Esta visão nos leva à uma imagem de um político num palanque sobre um abismo sustentado tão somente por aqueles com quem mantem a interlocução, o Povo. Veja a imagem aqui ou aqui. Nesta imagem, resta claro que o burocrata não se importa com a situação daquele que o sustenta, pois, a perda de seu público é também a sua queda. Mas cabe perguntar: queda da onde? Respondo: do Poder, é claro. Senão vejamos, o Poder sem qualquer substância é um abismo sem fundo, escuro, tal qual um buraco negro onde sequer pode “existir”. A substância aqui aludida diz respeito ao homem e sua condição e, portanto, ao indivíduo, o que nos leva a jamais querer escraviza-lo sob nossos desejos infinitos. Ao compreender que o Poder advém da união das consciências, mas jamais, da sobreposição maligna sobre o outro, compreendemos que o Poder é a própria união pelo bem do indivíduo, dando a este a oportunidade de vivenciar sua experiência em sua plenitude, sem entregar-lhe nada do que é seu e sequer tomar-lhe algo, resguardando a estas experiências o seio da sagrada família. Que fique certo que aqui não trago expressão religiosa, mas apenas a lógica das relações de Poder. Isto posto, ao considerar que, em sua maioria (novamente, apresentando o termo “maioria” como expressão da prudência) não existe detentor de Poder na esfera da representação que tenha compreensão ou conhecimento que o leve a desenvolver uma relação de verdadeiro respeito com os seus representados, tem-se que este representante ou líder fará de tudo para jamais cair no abismo do poder sem substância, pois isto representa a sua luta pela vida. E neste ponto, na luta pela vida, torna-se evidente que este último (o representante) não se importa com a vida do outro (o representado).
O segundo aspecto diz respeito aos efeitos do desprezo pelo “outro” e seu consequente resultado no campo do trabalho, ou seja, na produtividade. Senão vejamos, quando os interesses do representante não condizem com o princípio coletivo da melhoria de condições de trabalho e vida para todos os representados, então tem-se que aquilo que efetivamente beneficiaria os representados no longo prazo, não é perseguido. E aqui evidencia-se a necessidade de diferir as ações de longo prazo das de curto prazo. Conforme explicitado na parte um deste artigo (leia aqui), tem-se que, no curto prazo estão as questões relacionadas basicamente ao salário e as condições no ambiente de trabalho. Já no longo prazo, tem-se a capacitação da mão de obra e sua produtividade. Ocorre que se atendidos apenas os desejos de curto prazo, logo tem-se um cenário de crise dada a insustentabilidade das políticas adotadas, uma vez que o aumento dos custos de produção pelo lado da mão de obra leva à redução da qualidade dos bens produzidos e à elevação dos preços médios. Com a consequente redução da qualidade e elevação dos preços, o mercado irá adotar aquele “bem” que é mais vantajoso fazendo com que o produtor do “bem” menos vantajoso tenha sua demanda reduzida. Como consequência ocorre o desemprego para atender a redução do nível de produção e em seguida a queda média da capacidade de consumo afeta toda a economia. Neste ponto fica evidente que a o discurso ideológico de curto prazo dos representantes brasileiros não gera riqueza, mas sim miséria, nos levando ao plano de fundo de nossa figura. O fato em análise, evidencia que enquanto representantes do Estado Sindical, constituíram uma cultura sindical que preza apenas pela satisfação imediata, criando trabalhadores voltados à mediocridade, de baixa produtividade e extremamente caros, que para defender seus postos de trabalhos são capazes APENAS de promover picuinhas e “puxar o saco” do chefe, em vez de produzir mais e melhor; estes mesmos trabalhadores, sem se dar conta, passam a sofrer com os efeitos da própria mediocridade na economia e nos meios de produção.
O fato inegável é que enquanto representantes sindicais estão aumentando seus patrimônios pessoais em nome de uma ideologia que jamais acreditaram, ou sequer conheceram, os trabalhadores estão ficando à mingua e reféns do jogo de Poder do qual seus representantes, há muito tempo, já fazem parte. Faz-se aqui, portanto, a expressão final deste artigo, no qual alertamos à todos os trabalhadores para que abram os olhos e enxerguem que seu verdadeiro inimigo, há muito, não é o capitalista, mas sim, aqueles que deveriam defender seus interesses e que em nome disso, tomaram o seu poder e, aos poucos, sua dignidade. Salientando que, a representatividade, se honesta, é bem-vinda e necessária. Afinal, o capitalista, também tem seus interesses.
Referências e Notas de Rodapé:
[1] Neologismo popularizado durante o trabalho de investigação e oferecimento de denúncias na conhecida Operação Lava-Jato.
[2] http://observatory-elites.org/wp-content/uploads/2011/11/RODRIGUES-Leoncio-M.-Mudancas-na-classe-politica-brasileira.pdf
[3] A imagem que encabeça este artigo é uma composição de duas imagens que foram adaptadas para formar esta única. As imagens originais podem ser visualizadas individualmente nos links a seguir:
Imagem de fundo, disponível Aqui
Homem de Cartola, disponível Aqui
Rodrigo Mendes Carpina. Economista, formado pela Universidade Federal de Rondônia. Especialista em planejamento estratégico e indicadores de gestão para os setores público e privado. Autor do livro "A Estratégia Por Trás Do Balanced Scorecard", publicado pela Editora da Universidade Federal de Rondônia. Idealizador do modelo matemático denominado “Coeficiente de Desigualdade Agregado”, que visa avaliar aspectos relevantes do orçamento estadual, com vistas a ser uma ferramenta de apoio à análise efetuada nos Relatórios Prévios do TCE/RO. Atuou, no ano de 2013, na revisão do Mapa Estratégico do Estado de Rondônia. Já atuou no setor cooperativo de crédito (SICOOB Central Norte) e de educação (Regional Senac/RO) sempre à frente de ações de planejamento e relacionamento com entidades de controle externo e auditoria. Atuou, em 2017, na consultoria que elaborou o Planejamento Estratégico da Secretaria de Finanças do Estado de Rondônia – SEFIN/RO. Atualmente, desenvolve soluções voltadas para o Setor Público com a aplicação de Data Intelligence (Business Intelligence – BI), de modo a correlacionar as ações e medidas estratégicas e apoiar o desdobramento da estratégia aos níveis táticos e operacionais, promovendo a relação de Causa e Efeito previsto no modelo BSC.




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