LEITURA POLÍTICA: ANÁLISE DO CENÁRIO ELEITORAL RONDONIENSE PARA 2018

O Senador Valdir Raupp vem colocando gasolina na fogueira nessa crise relâmpago que vem ocorrendo dentro do núcleo do MDB de Rondônia. Se a intenção foi apenas colocar o atual governador Confúcio em situação complicada com denúncias irreais ou reais (não temos denúncia feita pela ALE), pressionando o mesmo a não concorrer a uma vaga no senado, deixando a eleição menos complicada para Valdir Raupp, que necessita ter o foro privilegiado para não cair na mão de Sergio Moro, parece que o objetivo não foi atingido.
Ocorre que veio à tona toda a articulação ocorrida no âmbito do Legislativo Estadual com o vazamento de áudios e da transcrição da conversa entre os Parlamentares Jesuíno Boabaid e Maurão de Carvalho, independentemente de ser ela ilegal ou não, quem sai prejudicado é o pré-candidato Maurão de Carvalho que aparece como um articulador sem ética e caráter, que se utiliza de expediente pouco republicano para intimidar o chefe do executivo que até bem pouco tempo era um aliado político-partidário, colocando em xeque a sua credibilidade e a sua preferência como uma escolha de sucessão viável aos eleitores rondonienses.
Por outro lado, temos a atitude incerta do governador Confúcio, que informou, assim contam os boatos, que o mesmo não sai mais candidato. Os motivos vão desde uma possível inelegibilidade até um desgaste extremamente danoso e irrecuperável à sua campanha ao Senado, como consequência de todo esse movimento de denúncias, e mesmo as ameaças feitas pelo núcleo do MDB, o famoso “fogo amigo”.
Contudo, ao meu ver, essa é uma jogada de mestre. Confúcio precisava de um motivo, além da antipatia mútua existente entre ele e o Senador Valdir Raupp, para justificar sua saída do MDB, e com o vazamento do áudio, temos o motivo necessário para uma saída por cima, com caráter, reafirmando que seu motivo é a falta de apoio partidário do MDB. Adiciona-se a isto, a ideia marqueteira de finalizar sua carreira política de forma honrosa e produtiva. Reitera-se a questão do vazamento dos áudios pois este, se mostra um ponto altamente obscuro e sem explicação em meio a todo esse imbróglio. Disto, inferem-se as seguintes perguntas:
Alguém viu uma declaração de que Confúcio desistiu de algo para o pleito deste ano?
De onde partiram os áudios e a transcrição que expuseram os bastidores da articulação dos Deputados?
Tudo partiu de um assessor do alto escalão que vazou a informação?
Difícil de acreditar, principalmente porque Confúcio tem ótimas chances de ser um dos dois senadores eleitos.
E é neste ponto que a história chega na sua melhor parte, pois aqui passamos a ponderar a (suposta) rixa entre Confúcio e Daniel Pereira. Para convencer a todos de que é fato concreto a crise entre o Governador e seu Vice vemos ocorrer ações concretas para que todos pensem que ambos estão realmente estão distantes e que os acordos firmados para sucessão foram todos para o ralo. Uma destas ações é a volta de todos os cargos que já haviam sido definidos por Daniel Pereira aos seus antigos “donos de pasta”, ato contínuo, vê-se a demonstração de surpresa de Daniel Pereira diante das desonerações de seus indicados e uma série de declarações de descontentamento na mídia local, sobre a desistência repentina de Confúcio para o pleito de 2018 ao Senado Federal.
Depois, o que vemos é um Governador que, em meio a essa crise toda, viaja para tratar de diversos assuntos em uma agenda não tão clara e, em seguida ao seu retorno, é Daniel Pereira quem viaja, deixando para se encontrarem somente no fim do mês de março, deixando a todos seus rivais sem saber que rumo terá Confúcio.
Confúcio, vai aproveitar essa crise para sair do MDB e se vincular ao PSB, pois o PDT ficou inviável com a saída do pré-candidato ao Governo, o Senador Acir Gurgacz. Neste novo cenário, Confúcio poderá apoiar abertamente Daniel Pereira, fazendo uma chapa muito forte para a sucessão de 2018, colocando todo o MDB em posição desfavorável. Não acreditamos que Confúcio vá para o DEM como algumas pessoas afirmam, a não ser que já tenhamos uma coligação formada PSB, PDT e DEM.
O jogo continua a se formar no estado de Rondônia para as eleições 2018 para Governador e Senador. No horizonte há o sempre presente e forte politicamente, Ivo Cassol. O político conta com uma incomum popularidade junto à diversos segmentos da sociedade proveniente da época em que foi Governador, confirmando sua força política quando da eleição para o Senado, ocasião em que conquistou mais de 450 mil votos (32,34% dos votos válidos).
O lançamento de sua pré-candidatura traz uma nova perspectiva ao pleito, pois a tarefa de Daniel Pereira ao tentar se reeleger (num cenário em que Confúcio concorre para o Senado) fica mais complicada, pois Ivo Cassol é um fortíssimo adversário. Entretanto, o que nos deixa em alerta é se sua candidatura será homologada, pois, como sabemos, ele foi condenado por um colegiado, ficando inelegível segundo a Lei da Ficha Limpa.
A situação de Cassol, é extremamente complexa, contudo, o Senador (possível candidato ao Governo) obteve vitórias importantíssimas no âmbito judicial, ao longo da pavimentação de sua candidatura. Diz-se isto, pois a redução de sua pena foi uma vitória estratégica e abriu-lhe a possibilidade de aproveitar uma brecha legal, que lhe permite usufruir do benefício da “prescrição da pena” (e não do crime, que já foi julgado), dando-lhe o status, caso a prescrição seja concedida, de “Ficha Limpa”. Ao que parece, não será a justiça que irá barrar as intenções de Cassol, mas as articulações que está a costurar e, por óbvio, a decisão de Confúcio de sair ou não à candidato ao Senado.
Caso Ivo Cassol fique fora da disputa pela vaga no Executivo Estadual (seja por optar uma volta ao Senado, ou mesmo por não disputar a nenhum cargo, o que parece improvável), o atual Senador por Rondônia vem construindo uma interlocução que lhe permita fortalecer uma eventual (e distante) candidatura de sua irmã, Jaqueline Cassol, que, por enquanto, está associada a busca por uma vaga na Câmara Federal. Ocorre que Jaqueline, apesar de ter potencial para concorrer ao Executivo Estadual, não obteve um bom resultado quando de sua última tentativa em 2014. Uma estratégia, seria proteger a sua figura até o último minuto e, “aos 45 do segundo tempo”, lançar seu nome ao Governo do Estado. Entretanto, conta-se que pesquisas internas dão conta que apesar de sua força política, Ivo não consegue transferir votos, como comprovado em pelo menos 3 ocasiões: 1) Em 2010, quando da reeleição de seu vice João Cahulla, que perdeu no 2º turno para Confúcio Moura; 2) Em 2014, quando da tentativa de eleger a sua esposa, Ivone Cassol, ao Senado, alcançando apenas a 3ª colocação ; 3) Também em 2014, quando apoiou a candidatura de sua irmã, Jaqueline Cassol, que, com 121 mil votos, também amargou uma 3ª colocação no primeiro turno.
Ao que parece, Ivo Cassol, impõe aos seus apoiados um perfil forte e proativo, o que, na prática, inviabiliza a própria convivência com o político, uma vez que seu temperamento forte, exige alguém mais submisso. Como solução para este problema, tem-se que, ou Ivo Cassol aprende a conviver e fechar parcerias com pessoas com perfil forte como o seu, e assim consegue transferir votos, ou precisará encontrar um inigualável ator, capaz de enganar a população ao se mostrar um político com o perfil parecido com o de Ivo, enquanto nos bastidores se coloca submisso ao atual Senador. O problema da 2ª opção é que mentiras não têm durado muito tempo no cenário político atual.
Em relação a Ivo e Confúcio pode-se considerar que ambos têm fatores ótimos e fatores desagradáveis que deverão ser tratados pelo seus assessores e coordenadores de campanha de forma cuidadosa. Ivo Cassol tem que lidar claramente com seus problemas com a justiça e com a pecha da corrupção que vem lhe seguindo desde o seu tempo de Prefeito de Rolim de Moura. Já Confúcio não fica atrás, pois a herança que ele deixa para seu sucessor é preocupante, pois ainda que uma de suas bandeiras ao longo de sua administração tenha sido o foco no “Equilíbrio Fiscal” do Estado, o que vemos é que, nas suas mãos, o endividamento do Estado cresceu no longo prazo e eficiência da máquina vem sendo reduzida, ao passo em que a propagando e a comunicação efetivamente melhorou, o que nos coloca num cenário de “País das Maravilhas” em meio a um inferno fiscal preocupante. O sucessor de Confúcio, certamente enfrentará problemas com servidores e sindicatos dada a massa fiscal problemática herdada e a pouca flexibilidade orçamentária construída em seu Governo.
A aliança de Expedito Júnior (PSDB) com Ivo Cassol (PP), traz um problema não tão grande (como se vem noticiando) para a Deputada Mariana Carvalho (PSDB). Isso porque ela está em alta no diretório nacional, pela sua atuação nas comissões do Congresso. A Deputada também é uma das poucas figuras que conseguiu capitular para si a figura de uma “nova política”. Há também o fato de que o PSDB nacional a tem visto como uma figura proeminente na política regional, pois além dos bons resultados que vem colhendo nos últimos pleitos, Mariana teve um grande peso nas eleições municipais de 2016, na eleição do Prefeito Hildon Chaves, que sequer era cogitado para o segundo turno, bem como conseguiu contribuir diretamente para a eleição de seu irmão como vereador na Capital, Porto Velho.
Ocorre que Mariana busca evitar a vinculação de sua imagem à de políticos com histórico de corrupção e/ou condenados pela Justiça. Neste contexto, o cenário mais provável é que o PSDB nacional e regional fique rachado quanto ao apoio à candidatura de Expedito Júnior, forçando ele a ir para outro partido, no caso o PP, se quiser concorrer ao pleito de 2018, seja para o Senado ou Governo. Ocorre ainda que até as eleições de 2022, Mariana Carvalho poderá se gabaritar para tentar uma vaga ao senado pelo PSDB.
Por fim, Ivo Cassol e Expedito Júnior formam uma chapa muito forte e com boas possibilidades de repetir o sucesso já experimentado pela dupla. Isto colocaria mais pressão para o MDB emplacar o senador Valdir Raupp e deixando ele mais perto de perder o foro privilegiado.
Eleição para Governo e Senado é briga de cachorro grande e apesar de algumas fórmulas serem conhecidamente eficientes, as alianças entre velhos tubarões da política no pleito de 2018 não serão suficientes, sozinhas, para convencer o eleitorado. Será um erro estratégico para as campanhas, confiar apenas nisto, sem considerar a necessidade de alinhamento às novas pautas que estão tendo abertura junto ao eleitorado.
A novela Confúcio se desenrola para, como tínhamos previsto, uma jogada audaciosa e que repete a imprevisibilidade que lhe garantiu sua reeleição em 2014. Seus adversários políticos, se não forem capazes de interpretar a movimentação do estrategista do Executivo Estadual, passarão vergonha mais uma vez. No meio de toda essa imprecisão, Daniel Pereira assume o Governo e vê sua possibilidade de fechar uma chapa com Confúcio para alavancar sua reeleição como Governador. Na prática, por causa do enorme pavor de perder poder, os Raupps acabaram por expor o próprio partido a um risco que não será aceito pelas alas de Poder que já se dividem dentro do MDB quanto à direção que será tomada pelo MDB.
Como na selva, um inimigo fraco atiça a sede de sangue dos seus adversários. Na selva da política, resta ao MDB manter sua estratégia na esperança de que acordos internos garantam a reeleição dos Raupps e o fechamento de uma parceria com o executivo estadual a fim de manter o status quo ou se reinventar por meio da figura de um novo líder. Na segunda hipótese, poderíamos ver surgir Confúcio como o mais novo “dono” do partido, ao passo em que continuariam à espreita e à espera do menor vacilo deste, para retomar o Poder, Valdir e Marinha (Raupp). É possível que estejamos diante de um evento histórico na política partidária de Rondônia, pois é bem provável que (como poucas vezes na história) comtemplaremos uma expressiva mudança em relação às mãos que acolhem o poder no Estado.
Para quem conhece o processo eleitoral e os bastidores da política no Brasil sabe que os cargos majoritários, como os de Presidente, Governador e Senador são o auge da vida de um carreirista político. Tais cargos acabam por dar visibilidade nacional a eles e enorme prestígio regional. Por isto, essas disputas são realmente emblemáticas, cheias de rivalidade, se comparando a duas torcidas organizadas de futebol, que não conseguem ver além do seu fanatismo, nem quando seus jogadores cometem uma jogada ilegal.
Entretanto, já não é possível negar que a visão política da nação mudou muito nos últimos anos. Há uma nova consciência popular que não somos capazes de dimensionar com clareza. Sabemos, entretanto, que as redes sociais e mídias alternativas de informação têm um papel fundamental neste novo cenários e, portanto, são canais através dos quais essa nova consciência se forma. Pressionadas, as lideranças políticas, por mais que tentem, não são capazes de atender às demandas sociais da atualidade. Estas lideranças estão perdidas, principalmente porque não entendem que o caminho da política está sendo reconstruído com o insumo de uma “nova” ética política, que, na verdade, busca paralelo em tempos como a Monarquia ou do Regime Militar.
Neste contexto, vamos ver aparecer lideranças novas, tentando colar em si a imagem da nova política, mas sem um histórico ou competência para tal. No final das contas, eles conseguirão apenas colar em si a imagem de lobos em pele de cordeiro. Boa parte desses novos líderes não terão sucesso na busca pelo convencimento do eleitorado já calejado por políticos como esses.
Por fim, seguem 3 dicas para os pré-candidatos de Rondônia:
Sejam profissionais;
Abandonem os assessores puxa-sacos e;
Mantenham uma equipe técnica séria próxima de si, que seja capaz de lhes apresentar soluções eficazes que possam ir além da retórica política.
Antonio Lins. Especialista em Tecnologia e Processos, proprietário da Norlin Consultoria, uma empresa de tecnologia e processos gerenciais focada em gestão empresarial e pública, que atua há mais de 18 anos no mercado brasileiro. A Norlin já atuou junto a clientes como o SEBRAE Nacional, M. Dias Branco, Cerbras, Calila (Grupo Jereissati), Fecomercio/CE, Macro Engenharia, entre outras organizações no País. Antonio Lins já atuou na Assessoria de Governo do ex-governador Tasso Jereissati, no Estado do Ceará e de outros políticos na fase de pré-campanha e campanha, acumulando vasta experiência de análise de cenários políticos. Entre outras atividades, vem atuando na formulação de estratégias que cumulam tecnologia e análise qualitativa para empresas e políticos nos Estados do Pará, Ceará e Rondônia.




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